A Díade Radagon e Marika

“Estando aqui, percebo que os papéis se inverteram.” 
Essa frase me fez notar o que estava me incomodando sobre toda a situação de “Marika é Radagon, e Radagon é Marika”, que ainda intriga a comunidade. 

Para explicar meu ponto, preciso trazer conceitos criados pelo psicólogo Carl Gustav Jung, aqui estão alguns: 

  • Animus: É a imagem do masculino que uma mulher tem, o homem que reside dentro de cada mulher, o “lado masculino”, o homem interior; 
  • Anima: É a imagem do feminino que um homem tem, a mulher que reside dentro de cada homem, o “lado feminino”, a mulher interior; 
  • Mãe Devoradora: Termo que descreve o aspecto sombrio de uma mãe, que protege e limita tanto aqueles sob seus cuidados que eles acabam aprisionados e destruídos. (João e Maria representam isso perfeitamente);
  • Persona: É um lado, uma faceta da Consciência de alguém. Todos têm múltiplas personas;
  • Sombra: É uma representação de nossas fraquezas psicológicas, as coisas que não conseguimos aceitar, é parte de nós que recusamos aceitar, e esse conhecimento é esquecido, mas armazenado na sombra. Nas palavras de Jung: “Todos carregam uma sombra, e quanto menos ela é incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Se uma inferioridade é consciente, sempre há uma chance de corrigi-la. Mas se é reprimida e isolada da consciência, nunca é corrigida, e pode irromper de repente, num momento de desatenção. Em todos os casos, ela forma um obstáculo inconsciente, frustrando nossas intenções mais bem-intencionadas.” 

Do meu ponto de vista, Marika foi eleita como Deusa para proteger e carregar o Anel Pristino e a Ordem que ele traz. Escolher uma mulher ao invés de um homem é algo simbólico, já que mulheres são frequentemente associadas à proteção e ao cuidado, que é a intenção do Deus Exterior.

Toda mulher tem seu animus, e Radagon é o masculino interior de Marika projetado no mundo real.

Radagon representava o Animus de Marika, e deveria ser um contrapeso, uma garantia de que a Ordem seria mantida. Isso é apoiado pelo fato de que ele tentou consertar o Anel Pristino, mesmo tendo lutado contra ele, e se uniu a Rennala, pois rejeitou a guerra de Marika. 

O desvio de Marika da Vontade Superior

Marika tinha um instinto protetor exagerado, fruto do seu ódio pelos demi-humanos, tanto que expulsou aqueles que estavam sem graça e representavam uma ameaça, como os, seres que tinham uma origem mais antiga que a Térvore, e perderam sua posição por causa da Ordem imposta por Marika. Eles também tinham a morte como parte importante de sua cultura, e até tinham meios de entregá-la de forma que nenhuma ressurreição fosse possível.

Marika criou sua família, e ficou obcecada em protegê-la, tornou-se a Mãe Devoradora, protegendo sua prole, servos e a Ordem tão ferozmente que causou danos incríveis ao mundo, tornando-se uma destruidora, em vez de protetora. Ela removeu a morte da Ordem, e a renomeou como a Ordem Dourada.

Esse desequilíbrio na mente de Marika se reflete em sua escolha para Elden Lord: Hoarax Loux (depois renomeado como Godfrey), um chefe selvagem que poderia servi-la bem na guerra. No entanto, ele era descontrolado, precisava seguir regras e ser submetido à Ordem Dourada, então Marika concedeu a ele Serosh, um leão espiritual com a capacidade de transformar Hoarah Loux no rei adequado, Godfrey. No entanto, seu Animus, seu homem interior, ainda não estava representado em Godfrey, ele nunca foi realmente feito para ela.

Radagon, que foi enviado para lutar contra Rennala, percebeu os erros nas tentativas de Marika de proteger a Ordem, e então se uniu a Rennala. Isso representa o desalinhamento de Marika com seu Animus, que a empurra de volta.

O retorno ao equilíbrio

Marika começou a duvidar de si mesma após ter dois filhos “infectados” com traços do Crisol, das criaturas que ela jurou destruir, porém, ela não matou seus filhos. Talvez ela tenha começado a mudar de ideia, e percebeu que mesmo aqueles sem graça ainda faziam parte da Ordem de alguma forma, e ela os havia privado de seus rituais, cultura e vidas. 

Quando seu último inimigo caiu pelas mãos de Godfrey, ela provavelmente se sentiu vazia, ou buscou outra forma de proteger a Ordem Dourada. Ela expulsou Godfrey, já que ele nunca realmente incorporou aquilo em que ela acreditava, além de ele ter perdido sua graça, seu objetivo de vida, e aceitou Radagon, um homem mais parecido com ela. Radagon retornar para Marika indica que ela se realinhou com seu Animus, o desequilíbrio foi corrigido.

Através do conteúdo de alguns criadores, é possível supor que Melina é uma extensão de Marika (assim como Millicent é uma extensão de Malenia), criada para carregar sua vontade, ajudando Ranni a se tornar a próxima Deusa.

Ranni seguiu a Lua Negra, que também representa as estrelas. Isso vem da ideia de que a feitiçaria é o poder do espírito, e a lua fornece poder mágico aos habitantes das Terras Intermédias, e é um poder que poderia ameaçar a Ordem Dourada, pois as estrelas são ainda mais antigas e fundamentais que os Deuses Exteriores.

Isso é apoiado pelo fato de que Radahn, leal à Ordem Dourada, parou o movimento das estrelas, para que sua influência fosse anulada. 

Pelos conteúdos espalhados no jogo, é possível que Marika tenha tido um papel importante na noite das Facas Negras ao fornecer as assassinas da mesma raça que ela, Numen, um nome que pode significar a vontade expressa do divino

Marika escolheu matar Godwyn, seu único filho que não tinha nenhum defeito pois ele era a personificação da Ordem Dourada, e seu maior protetor, daí o nome Godwyn, O Dourado, pois ele poderia impedir os seus planos.

O plano de Marika para a renovação

Humanos, e os jogos da From Software, são marcados pela dualidade: Vida e Morte, Dia e Noite, Céu e Inferno, Luz e Sombra e também como as eras precisam mudar, mesmo que isso signifique deixá-la desaparecer na escuridão, para que um dia possa renascer.

A Rainha de Olhos Sombrios é Melina, que é uma extensão de Marika, uma Persona contida nela e trancada em sua Sombra, daquilo que ela ignorou e desejou nunca perceber: O modo devorador de sua proteção, o quão errado era o modo como ela protegia a Ordem. Melina nasceu assim como a Sombra: irrompe nos momentos a ela oportunos.

Dizem que Maliketh derrotou a Rainha de Olhos Sombrios, mas acredito que isso é um processo psicológico. Maliketh era o aspecto negativo da Sombra de Marika: agressividade, selvageria, fúria, mas domesticada, algo que vai contra os próprios princípios do mundo. Mas a Sombra, como sempre acontece, encontrou outra forma de se manifestar: seja perturbando a mente de Marika ou dando-lhe filhos com aspectos corrompidos do Crisol (dependendo se ela teve filhos antes ou depois da derrota da Rainha de Olhos Sombrios). O que importa é que sua Sombra renasceu como a Rainha de Olhos Sombrios.

O fogo é um símbolo poderoso, suas capacidades destrutivas são representadas na Chama Negra, e a chama “normal” representa o aspecto curativo e purificador do fogo. As magias e armas da Chama Negra estão todas ligadas à Rainha de Olhos Sombrios, então por que a chama de Melina, quando ela queima a Térvore, é laranja? Porque evoca purificação, limpa a Térvore, representa o progresso natural do ciclo de renovação, abordado em todos os jogos Souls da From Software.

A Rainha de Olhos Sombrios, Melina, nasceu (ou renasceu, caso tivesse se manifestado fisicamente no passado) aos pés da Térvore, representando uma nova vida, uma nova chance para ela, infundida com o poder da Runa da Morte, para dar-lhe a capacidade de empurrar o mundo para a renovação. Seu poder, no entanto, está selado até que alguém decida trazer destruição absoluta, como Marika fez (como mostrado no final Chama Frenética).

Marika já sabia que Radagon tentaria restaurar a Ordem Dourada, e que ele falharia, pois ela mesma o havia criado, quando Marika se dividiu, por desequilíbrio psíquico. Quando ela entrou na Térvore e quebrou o Anel Pristino, vemos no trailer de revelação de 2019 que Marika tem, às vezes, uma aparência feminina, e outras vezes, masculina. 

Isso torna incerto determinar se ela já havia se tornado uma só com Radagon, ou se Radagon chegou após a destruição, buscando manter a Ordem intacta e funcionando perfeitamente, o que é perfeito, pois o masculino, representa, simbolicamente, a lei e a ordem, enquanto o feminino, a emoção e o cuidado.

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